Jerivá das ruas e avenidas é “ouro amarelo” nas mãos de produtor de Mairiporã, parceiro do Instituto Auá

Há uma aparente normalidade na presença do Jerivá na paisagem urbana e no meio rural, como a de uma árvore que dá em todo lugar, afastando a noção da riqueza dessa espécie brasileira, que começa a ser redescoberta como “ouro amarelo” por seu forte potencial de uso humano e recuperação da floresta nativa.

O valor da palmeira foi tão esquecido pelas pessoas, que há poucos estudos sobre a espécie de frutos comestíveis, produção abundante e importante expressão da cultura guarani. A bebida extraída do Jerivá é fonte rara de nutrientes, como os carboidratos, fibras solúveis e carotenóides, que provêm do fruto doce, colorido e carnoso. São milhares de coquinhos que brotam nos cachos de um único pé, dando a média de três floradas ao ano e dezenas de quilos por florada.

Em Mairiporã, município periurbano de São Paulo, o Jerivá começa a ser redescoberto pelas mãos do produtor Arnaldo Teles de Ataíde, cuja relação com a Mata Atlântica parte de sua própria história de afeto pelas palmeiras da Mata Atlântica. Hoje ele já fornece a polpa do Juçara e do Jerivá para desenvolvimento de novos produtos no mercado, baseados nas cadeias da sociodiversidade, como vem fazendo com o Empório Mata Atlântica, do Instituto Auá.

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Da Juçara ao Jerivá

A propriedade de Arnaldo foi comprada há mais de 20 anos e ele passou a observar encantado os pés de Juçara que cresciam no meio da mata nativa. Foi aos poucos que percebeu o desaparecimento dos Jacus, ave típica das Américas, a qual depende do fruto da palmeira, e motivou-se para uma nova ideia.

“Comecei a semear Juçaras direto na floresta e a doar muda para os vizinhos plantarem, hoje é possível notar pés de mais de 10 metros que plantamos há 16 anos. A mata foi repovoada, houve a volta das aves, e é possível afirmar que o uso da espécie é voltado à polpa do fruto. Afinal, já viu algum bicho comer o palmito?”, brinca o produtor, que iniciou o plantio como hobby e hoje produz cerca de 250 quilos de polpa de Juçara por semana para o mercado.

Há alguns anos, o panorama privilegiado do sítio, voltado para o paredão da serra de Itapetinga, trouxe uma imprevista mudança no uso da terra na região, com a incorporação de 40 hectares da propriedade ao Parque Estadual de Itapetinga, criado em 2009 pelo Governo do Estado, com cerca de 17 mil hectares. Restaram 10 hectares fora da Unidade de Conservação, mas a proposta de um modelo sustentável de conservação da mata foi reafirmada, assim como o encontro com o potencial de outras árvores nativas e, especialmente, do Jerivá.

“A maioria conhece o coquinho, quando criança usávamos para brincar de estilingue e também mastigávamos a polpa. Mas não é valorizado, as pessoas não comem o que vem na mata”, enfatiza. Foi com os sentidos bem abertos, ao notar o sabor doce e gorduroso do fruto, e a participação no Seminário Frutas Nativas da Mata Atlântica, da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, que descobriu o quanto a polpa grossa pode ser aproveitada de diversas formas, em sucos, sorvetes, doces e salgados. Além do forte sabor, o do Jerivá possui altos teores de vitamina A, ômega 3, 6 e 9 e o chamado “óleo palmítico”.

Ao contrário de outras espécies quase extintas na Mata Atlântica, o Jerivá mantém-se preservado devido a diferentes fatores: além de existir em grande quantidade na natureza e frutificar quase o ano todo, seu caule é tão fibroso que dificulta o corte. Segundo Arnaldo, há ainda uma crença antiga de que pessoas da família podem se acidentar se for cortado um pé de Jerivá. “Poucos fazem uso da árvore, o coquinho cai e dizem que suja o chão, esperamos que as pessoas queiram vender para nós até por conta disso”, ressalta.

O projeto Polpas da Mata, criado dentro do sítio, começa a nascer para valorizar as árvores que a comunidade possui “no quintal”, reforçando as qualidades desses produtos para o mercado, ao mesmo tempo em que melhora a qualidade de vida dos moradores locais.

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Nova economia local

A ideia é fazer o manejo do Jerivá no meio natural, deixando uma parcela dos frutos para a fauna local e a regeneração no meio ambiente, além de comprar uma parte dos frutos da comunidade, beneficiando a polpa diretamente no sítio e revertendo em renda para os moradores do bairro, numa relação importante em que todos ganham. Na verdade, o sítio organiza-se em duas frentes de atuação: o Parque Jussara, que investe na produção de mudas, polpas nativas e bambus; e a ONG Seres, criada para promover a sustentabilidade local.

A ONG, por exemplo, investe na recuperação de nascentes do entorno, promovendo o comércio justo e a capacitação dos moradores da vila dos Remédios, hoje com cerca de 600 famílias. “Queremos ser uma incubadora para que trabalhem corretamente, dar o empurrão inicial, assim fornecemos as bandejas de mudas para o plantio e compramos a produção. O objetivo é trazer qualidade de vida com geração de renda para as comunidades locais, começando pela comunidade do Remédio, em que estamos inseridos”, expressa Roseli Madeira, bióloga responsável pelos projetos da ONG e do Parque Jussara.

Uma cozinha comunitária funcionará de base para o desenvolvimento das receitas com espécies nativas e a comercialização dos produtos das famílias. A culinária com base nas frutas esquecidas revela-se um campo em amplo desenvolvimento, e somente para o Jerivá já foram criadas receitas inéditas como os molhos para carnes e moquecas, geleias, misturas em pimentas, uma paelha com frutos do mar, sobremesas como pudins, doces em pasta, sorvetes, além de organizações como o Instituto Auá testarem a polpa em diferentes bebidas e alimentos para comercialização.

Segundo Roseli, há um amplo trabalho por trás da venda da polpa pronta, que passa pelo cadastramento das árvores na comunidade e seu potencial de produção, coleta e armazenamento dos frutos, seleção e higienização, até o processo de despolpa mecânica e manutenção do produto congelado. “Hoje o carro-chefe do Parque Jussara é a comercialização de mudas do viveiro, mas esperamos que os frutos nativos venham a alavancar o investimento neste modelo sustentável”, reforça.

De fato, o potencial de árvores nativas como fontes de alimento e por seu papel em programas de recuperação ambiental, só agora começa a ser redescoberto pelo ser humano com vistas a benefícios ainda desconhecidos.

3 Comentários

  1. MAURICIO RUBIO PINTO ALVES

    MUITO BOM.
    ACHO QUE O CAMINHO É ESTE.
    AS PLANTAS SEMPRE ESTIVERAM NA NOSSA FRENTE E NÃO CONSEGUÍAMOS ENXERGAR O POTENCIAL
    GOSTARÍAMOS DE CONHECER ESTE SITIO EM MAIRIPORÃ.

  2. josimar

    Meus parabems pela iniciativa todos ganhamos com eses projetos sustentaveis nao ganhamos tanto dinheiro mas ganhamos o que o dinheiro nao compra ganhamos vidas tanto da natureza como da humanidade

  3. André Suza

    Tenho um Jerivá em casa e não dava muita confiança pra ele, olha que arrependimento, rs! Mas só descobrir isso depois de ter a iniciativa de criar um pomar no meu quintal (fundos – 35 x 25 mt). Ao ter um relacionamento de mais Amor pela natureza, envolvendo se com ela, percebo que é uma das melhores terapias que existe.
    Estou aproveitando muito bem agora o que o JERIVÁ pode oferecer.
    Um grande abraço!

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