A Cadeia Produtiva Local das Frutas Nativas da Mata Atlântica – Desafios e Aprendizados de 2025, por Luana Souza

Assumir a coordenação do projeto “Da Floresta ao Consumidor: Fortalecendo o Acesso ao Mercado das Frutas Nativas no Estado de São Paulo” tem sido uma experiência muito gratificante e profundamente conectada ao território onde vivo. Este é o segundo ciclo de projetos da Cadeia Produtiva Local (CPL) das Frutas Nativas da Mata Atlântica, no âmbito do programa SP Produz, e é o primeiro em que participo, o qual me trouxe muitas perguntas e inquietações sobre como o nosso público se alimenta e se interessa pela nossa biodiversidade.

Mais do que um projeto, a CPL é uma estratégia de longo prazo para aproximar agricultura familiar, conservação da biodiversidade e mercado. Seu propósito é fortalecer economias locais a partir da produção e escoamento das frutas nativas da Mata Atlântica, criando uma cadeia que gere renda, mantenha áreas conservadas e amplie o acesso do consumidor a alimentos com origem, história e impacto socioambiental. Neste artigo, compartilho os bastidores dessa gestão do ponto de vista da coordenação do projeto e o que vemos para o futuro da CPL.

Panorama Geral

Este ciclo do projeto, com duração de 12 meses, acontece em quatro territórios: Natividade da Serra, Piedade, São Miguel Arcanjo e Osasco, cada um contribuindo para a expansão do conhecimento sobre as frutas nativas se estendendo por toda a região metropolitana como vocês acompanharam mais a frente. 

Ao longo deste ano, trabalhamos simultaneamente em cinco eixos centrais que orientaram todas as frentes de atuação da CPL com o Instituto Auá, desde a supervisão técnica presencial em campo com os agricultores até a produção de material de divulgação, produção de conhecimento e a aquisição de freezers comerciais para levar ao consumidor final mais conhecimento e para ampliar o acesso do consumidor às frutas nativas e seus derivados.

Além de aprimorar práticas de colheita e manejo sobre as nossas frutas para otimizar o trabalho dos agricultores, no eixo de pesquisa, desenvolvimento e inovação, concentramos esforços na criação de quatro novas receitas de sorvetes, todas sem glúten, lactose ou açúcar, ampliando o portfólio de produtos e valorizando o potencial gastronômico da biodiversidade da Mata Atlântica para outros horizontes.

Sendo assim, esse ano foi um período marcado por uma articulação com meios de comunicação intensos, aprimoramento de processos internos, presença constante em campo com os agricultores para promover a construção de narrativas que valorizam as frutas nativas e aqueles que as mantêm vivas nos territórios.

Dados e resultados do período

Os resultados a seguir do ano de 2025 ajudam a dimensionar o alcance e a maturidade da CPL que estamos apresentando. Ao longo do ano, os produtos oferecidos pelo Empório Mata Atlântica, nosso mercado para os produtos da CPL dentro da Instituição Auá, foram apresentados a 842 estabelecimentos comerciais. Desses, 189 pontos de venda passaram a comercializar efetivamente os produtos, garantindo uma média mensal de 2.685 de produtos escoados.

No campo da produção e da logística, a Cadeia Produtiva Local das Frutas Nativas da Mata Atlântica Paulista abastece atualmente cerca de 15 toneladas de frutas por ano, nossas principais frutas comercializadas são: cambuci, uvaia, jabuticaba e juçara, entre outras temos a grumixama e jerivá que são produzidas em menor escala. Toda essa produção é armazenada no galpão do Armazém Biomas , sob gestão do Instituto Auá. E projetos como este dão apoio para que sejam atualizadas as embalagens de frutos congelados e picolés para se adequarem às atualizações das normas de rotulagem brasileira, garantindo frutos padronizados e de qualidade prontos para venda.

Além disso, ao menos 8 mil kg de frutas nativas foram escoados neste projeto, movimentando a economia local e fortalecendo a renda dos agricultores. São 17ha de áreas produtivas envolvidas considerando apenas produtores associados à CPL, porém estão envolvidas no fornecimento de frutas mais de 15 famílias, além de uma cooperativa de jovens, a coperjoven, estimado que aproximadamente 30 hectáreas estejam protegidos com a presença das espécies nativas da Mata Atlântica, evidenciando o impacto ambiental positivo do projeto.

Finalizamos o ano 2025 com a maior pontuação entre todas as CPLs reconhecidas no estado de São Paulo dentro do Programa SP Produz.

Bastidores da gestão: desafios enfrentados

Sem dúvida trabalhar com produtos agrícolas significa sofrer com as variáveis climáticas cada vez mais presentes e um dos principais desafios foi lidar com a compra de frutos em determinados períodos além de dificuldades logísticas com a oferta de produtos congelados e picolés em um dos anos com maior extensão da época fria no estado de SP. Essas oscilações de mercado demandaram a necessidade de ajustes contínuos nas estratégias comerciais para manter o ritmo de escoamento para encontrar o perfil ideal da nossa cartela de clientes.

Do ponto de vista da gestão, a diversidade dos territórios, a articulação entre múltiplos atores e os processos burocráticos exigiram extrema capacidade de adaptação durante o ano de 2025. Cada desafio, no entanto, trouxe aprendizados que fortalecem a condução da CPL e orientam as nossas decisões para o próximo ciclo.

Oportunidades e conquistas

Apesar das dificuldades, este ciclo consolidou avanços importantes. A governança da CPL teve a oportunidade de se fortalecer, foi ampliada a presença das frutas nativas no mercado e o reconhecimento institucional da cadeia cresceu. 

Como conquista do projeto tivemos a criação de novos produtos, a ampliação da rede de pontos de venda e o engajamento crescente dos produtores que demonstram que a nossa cadeia, a primeira Cadeia Produtiva Agroecológica do Estado de SP, está no caminho certo e mais estruturada e preparada para crescer.

Em campo, os agricultores acompanhados relatam o reconhecimento do valor das frutas nativas e se sentem motivados em fazer parte de uma cadeia que preserva o nosso bioma Mata Atlântica ao mesmo tempo em que gera renda, reforçando que o impacto social e econômico da CPL é real e palpável.

Visão para o futuro: próximos passos da CPL

Para 2025, a CPL seguiu com o objetivo de ampliar a comercialização, fortalecer a infraestrutura de armazenamento e distribuição, expandir parcerias e aumentar o número de guardiões das frutas nativas. Se você ainda não conhece quem são esses Guardiões, vale visitar nossa página web, onde apresentamos a rede de pontos de venda que divulgam e oferecem os produtos e subprodutos do Empório Mata Atlântica. A campanha “Guardiões da Mata Atlântica” é hoje uma das nossas principais estratégias para ampliar o acesso do consumidor final ao sabor das frutas nativas e fortalecer o reconhecimento dessa rede comprometida com a conservação e o consumo responsável.

O convite é para que cada vez mais pessoas se aproximem dessa cadeia: consumindo frutas nativas, apoiando iniciativas regenerativas e acreditando no potencial de projetos construídos com visão de longo prazo. Do lado de cá, seguimos investindo em práticas agroecológicas, restauração produtiva e inovação, sempre com foco na sustentabilidade econômica e ambiental dos territórios.

Nesse contexto, temos a alegria de anunciar que o terceiro ciclo do projeto foi aprovado em dezembro de 2025, no âmbito do programa SP Produz, e terá duração de mais 12 meses. Esse novo ciclo terá foco especial em ações de degustação, aproximando ainda mais consumidores das frutas nativas e do potencial da Mata Atlântica. Fica aqui o convite para acompanhar, participar e fazer parte desse próximo capítulo da CPL.

Cadeias produtivas locais mostram que é possível produzir, conservar e gerar renda de forma integrada. A CPL Agroecológica da Mata Atlântica é a prova de que quando floresta, agricultores e mercado caminham juntos, o impacto é real e duradouro.

Seguimos fortalecendo essa cadeia, com os pés no território e o olhar voltado para o futuro.

 

Luana Souza

Eng. Agrônoma pela UNESP

Mestre em Manejo e Conservação de Bosques Tropicais e Biodiversidade

Coordenação 

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