Frutas da Mata Atlântica ganham agroindústria artesanal em Natividade da Serra (SP)

Espaço importante para um novo modelo de aproveitamento da nossa biodiversidade, a agroindústria artesanal que vem sendo gestada no município de Natividade da Serra (SP) é um elo fundamental para os consumidores descobrirem as espécies nativas da Mata Atlântica. Sabores especiais de frutas como Cambuci, Grumixama ou Araçá serão reforçados em produtos novos que permitirão mais pessoas experimentarem e acessarem essas espécies.

Por trás da nova agroindústria, que já está realizando testes, busca-se a valorização dos agricultores familiares e da mão-de-obra artesanal de todos os envolvidos. Isso demanda atender um exigente sistema de controle, que envolve desde o padrão das instalações, até a rígida fiscalização sanitária para evitar contaminação e critérios para a qualidade da matéria-prima dos produtores.

“Sonho em oferecer polpas, geleias, xarope de todas as frutas da Mata Atlântica”, expressa Camilla Asmussen. A criação da agroindústria veio de suas mãos e de Michael Asmussen, após um processo natural de envolvimento com os produtores de sua região, mas as etapas para construção do empreendimento precisaram ser cuidadosamente planejadas. Cada etapa contou com análises pela Anvisa, Cetesb, Bombeiros e, ainda no primeiro semestre de 2018 a agroindústria será registrada no MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

 

O caminho das frutas começa com a compra dos produtores locais e segue até a venda dos derivados ao Instituto AUÁ, que atua na abertura do mercado para as nativas. Neste caso, a oferta de produtos minimamente processados vem se mostrando fundamental para popularização de espécies ainda pouco conhecidas.

Polpas para a merenda escolar, xaropes para a indústria de bebidas ou o fruto congelado de forma a manter sua qualidade para chefs e restaurantes, passam a ser apresentados a este mercado com enorme potencial de desenvolvimento que o casal de Natividade da Serra decidiu investir. “E há gargalos importantes que estamos vencendo, como o desafio da colheita devido ao Cambuci ser um fruto tão delicado quanto um figo, que exige mão-de-obra especial, e o espaço para armazenagem e congelamento”, revela Michael.

Proprietários de uma fábrica de refrigeradores no município, a dinamarquesa Birco, eles partiram para o passo fundamental de produção de um biofreezer que permite o congelamento rápido das frutas, ao contrário dos freezers convencionais, e cujas dez primeiras peças serão financiadas para os produtores de Natividade da Serra. Se eles chegam a perder até metade das frutas na safra, pois não têm onde congelá-las, o novo freezer congela até 25 quilos em 60 minutos, o que pode representar até 250 quilos de frutas por dia, que seguirão direto dos sítios para a agroindústria. 

 

UNINDO O CAMPO À CIDADE

Há 3 anos, Camilla assumiu um papel diferenciado de coleta das frutas em uma dezena de produtores para venda ao AUÁ, em São Paulo. Dentro da Rota do Cambuci, passou a realizar a função de beneficiadora, responsável por beneficiar o Cambuci de sua região no contexto de um Arranjo Produtivo Sustentável, que envolve 80 produtores em 15 municípios paulistas.

“Nunca havia ouvido sobre o Cambuci e fui procurada pelo produtor Alex, com 300 pés, pois queria reverter o desperdício, então descobrimos o AUÁ por meio dos Festivais e fizemos a parceria. Eu já tinha um caminhão-baú e passei a buscar as frutas diariamente, congelando em freezers horizontais em casa. Aos poucos, montamos o container que armazena até 15 Toneladas, e agora a câmara fria para mais 7 Toneladas”, conta Camilla.

Ela parte até 3 vezes por semana para os sítios em bairros isolados, onde a balsa é o principal meio de conexão entre as “ilhas” que se formaram com a inundação da represa de Paraibuna, ainda na década de 1970. Como uma relações públicas, faz o trabalho de manter os produtores motivados, identificando os desafios locais e as demandas do mercado. “É uma satisfação visitar os produtores, são pessoas sempre em busca de descobrir novos usos para as frutas. Faço a comunicação entre a realidade da cidade e o campo, onde há muitos saberes e práticas únicas”.

Os pais de Michael migraram da Dinamarca para São Paulo, onde construíram a fábrica Birco no bairro do Campo Limpo, mas a situação de violência urbana os fez buscar a região de Natividade “cuja represa lembrava os lagos da região de Copenhague”, diz Camilla. No ano de 2000, o casal mudou-se para o sítio dos pais e tiveram início vários ciclos produtivos até que encontrassem uma das vocações da terra para as frutas nativas.

São duas propriedades familiares, uma com 56 hectares onde se localiza a residência e a agroindústria e a outra com 77 hectares em que se explora o gado de corte e o plantio de nativas. “Toda a terra necessita ser usada e por muitos anos exploramos atividades variadas, iniciando com a criação de avestruzes, para comercialização da carne, a exploração de tilápias, que decaiu devido à crise de água, o gado leiteiro e os eucaliptos”, descreve a proprietária.

Mais de uma década após a mudança, eles localizaram uma dezena de pés de Cambuci na área que haviam reflorestado com milhares de espécies nativas doadas pela CESP para conservação das áreas de proteção ambiental. “Os pés estavam crescendo, roçamos em volta, e começou então o novo ciclo de investimento nas nativas”.

 

GRUMIXAMA E AMORAS-PRETAS

 

A região do Alto da Serra é composta em boa parte por pequenos produtores, cuja família está envolvida com o trabalho da colheita e do preparo de receitas mais tradicionais. E o uso das frutas de pomares como os do produtor Celso Brito já vem se desenvolvendo em estreita relação com a agroindústria.

É o caso da recordista Grumixama, já estudada como “superfruta” por suas propriedades antioxidantes, que está virando polpas pelas mãos de Celso e Camilla nas versões da Grumixama Amarela e Grumixama Preta. Por trás da iguaria, ainda em teste, encontra-se a rica história do plantador que deixou de criar tilápias para se dedicar às frutas nativas após o plantio de 1,5 mil árvores por compensação ambiental do eucalipto em sua terra.

Já são mais de 400 pés de Grumixama, 800 de Cambuci e centenas de outros de Uvaia, Jaracatiá, Cambucá, Juçara, Araçá-Boi, Cereja-do-Rio-Grande, Jabuticaba, Abiu, Abricó, além das deliciosas Amoras-Pretas, as quais congela para novidades como o suco de Amora. “No campo, aprendemos a usar de tudo, é preciso saber o que fazer com as matérias-primas, então testo receitas e busco aprender com os saberes do pessoal mais antigo daqui. Um deles me ajudou a melhorar o sabor da cachaça, ensinando a tirar o cravo e a usar a fruta gelada”, revela Celso.

Tal interesse o fez trocar os mais de 500 pés de Graviola, originária de outra região, por mais Amoras e nativas, conforme constatou também importantes transformações na biodiversidade local. “Surgiram aves que antes não apareciam, como tucanos e iraras, além das abelhas que visitam as frutas, e aos poucos, vamos percebendo como tudo se interliga, mesmo a formiga pode estar indicando que as plantas estão com carência de alguma substância”, conclui Celso.

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